SARGENTO
Como é que se pode recrutar uma companhia num lugar como este estou a
pensar em suicídar-me até dia 12 quatro pelotões nem consigo dormir as pessoas são manhosas se consigo apanhar um não me importo se tem varizes peito de galinha prego-lhe uma borracheira assina nessa altura diz que tem de ir dar uma mija cheira-me a rato no buraco corro atrás dele fogem como piolhos por costura não sabem o que é palavra de homem nem honra nem lealdade nem fé ou sentido de dever perdi a confiança nos homens há muito tempo que não têm guerra de onde lhes vem a moral a paz é uma confusão um desleixo a guerra põe tudo na ordem em tempo de paz a Humanidade aumenta a torto e a direito desperdiçam-se homens e gado comem até se enfartar um naco de queijo num belo pedaço de pão branco e uma fatia de toucinho por cima do queijo quantos homens novos e cavalos há na cidade ninguém sabe estive em sítios onde há setenta anos
não há guerra as pessoas não têm nome não se conhecem a si próprias é preciso guerra para haver registos e inventários metem-se as botas em fardos o milho em sacos os homens e as bestas numerados e arrumados sem ordem não há guerra a guerra custa a começar depois desabrocha floresce ninguém a pára as pessoas começam a combater e depois como jogadores que não querem fazer contas ao que perderam não param a princípio tem-se medo da guerra é uma coisa nova aí vem gente bom dia boa gente quem sois
CORAGEM
Gente de negócios
Comandantes parai as tropas
Deixai os soldados comprar
Com botas p'ra morrer e marchar
Os vossos homens não vos adoram
Canhões às costas e piolhos
É p'rá morte que marcham por vocês
Dêem-lhes botas para calçar
Acordem homens acorda o mundo
Derrete a neve os mortos dormem
Sobreviventes saiam da cama
Calcem as botas e andem
Homens marcham até morrer
Não lutam sem salchichas para comer
Cospem sangue é vermelho
Na barriga vazia um canhão a troar
Os homens não estão nada bem
Para o inferno mandem-nos marchar
Cumprimentos aos malditos
Acordem homens acorda o mundo
Derrete a neve os mortos dormem
Sobreviventes saiam da cama
Calcem as botas e andem
SARGENTO
Alto aí qual é o vosso regimento escumalha
O Segundo Regimento Finlandês
SARGENTO
Documentos
CORAGEM
Que documentos
QUEIJO SUÍÇO
O quê não a conhece é a Mãe Coragem
SARGENTO
Nunca ouvi falar porque se chama Coragem
CORAGEM
Coragem é o nome que me deram tinha medo de ficar sem dinheiro sargento atravessei um bombardeamento como uma louca com cinquenta pães na carroça que estavam a ficar bolorentos
SARGENTO
Nada de piadas ouviu os documentos
CORAGEM
Tenho uma biblia para embrulhar pepinos um mapa da minha terra sabe Deus se lá consigo chegar aqui vem carimbado que o meu cavalo branco
não tem a febre aftosa infelizmente morreu custou quinze fIorins não a mim graças a Deus
SARGENTO
Estás a gozar com a minha cara precisas de uma licença
CORAGEM
Fale decentemente comigo e não diga em frente dos meus inocentes filhos que estou a seduzi-lo não tenho tempo para isso uma cara honrada é licença suficiente para o Segundo Regimento se o senhor não sabe ler na minha cara pior para si não deixo que me carimbem
SARGENTO
Cheira-me a insubordinação no acampamento apreciamos a disciplina



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